LEXUS AMAZING STORIES #1

NINA GRUNTKOWSKI

Conheça esta Amazing Story onde o chá é acompanhado pela mesma inovação que carateriza a Lexus.

NINA E O CHÁ DA INOVAÇÃO.

Chamaram-lhe louca por querer produzir chá verde no Litoral Norte de Portugal. Hoje, tem 12 mil plantas a formar as raízes da Chá Camélia. “Gosto de fazer coisas que nunca ninguém fez”, assume Nina Gruntkowski. Esta é uma história extraordinária.

ATO 1: UMA HISTÓRIA PLANTADA PELA PAIXÃO.

O chá fumega sobre a mesa e, lentamente, o aroma inebria quem está ao redor. Cheira a mar, cheira a terra, cheira a natureza. Nina Gruntkowski não tira os olhos da taça. Segue o vapor com o olhar, aquece as mãos no sopé da cerâmica para enganar o frio, inquieta-se. “Já posso beber?”, pergunta, enquanto a chuva cai na quinta de Fornelo, Vila do Conde, berço da Chá Camélia. Dá um trago, fecha os olhos e só sussurra: “É tão bom, é mesmo bom.” Está apaixonada pelo seu chá? A resposta chega devagar, ainda a ser saboreada, com um leve aceno de cabeça, pálpebras semicerradas e um sorriso tímido: “Ainda bem.”

“O CHÁ SEMPRE ME ACOMPANHOU”

Naquela taça de chá verde cabe um sonho com, pelo menos, nove anos de vida, mas com raízes que estão bem mais atrás. Já em miúda, Nina, ex-jornalista nascida em Frankfurt, na Alemanha, trocava a escola por pequenos “momentos de chá” com as amigas. “Tinha uma que vivia perto da escola e às vezes faltávamos às aulas para beber chá em casa dela”, conta, sem conter o riso. “E as primeiras viagens que fiz como jovem, sozinha, foi para sítios onde há boas lojas, para conhecer novas qualidades e comprar.” Primeiro dentro da Alemanha, depois Londres, no Reino Unido, depois Austrália, onde, quase sem querer, foi parar ao coração do Daintree Tea. “O chá sempre me acompanhou e teve um papel muito importante na minha vida.”


  

  
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“O chá sempre me acompanhou e teve um papel muito importante na minha vida."

“O SONHO DE PRODUZIR ALGO QUE FICASSE.”

Por isso, quando estava a entrevistar um especialista suíço e escutou que a planta e chá é uma espécie da camélia, a Camellia sinensis, quase arruinou a gravação, tamanho era o entusiasmo. Afinal, ela vivia nas “terra das camélias”, no litoral norte de Portugal, e maravilhava-se com aquela árvore que dava “flores lindas no Inverno”. Ainda para mais, sempre tivera o “sonho de produzir algo que ficasse”, até para contrariar a efemeridade do jornalismo radiofónico. “Só não sabia o quê.”

“VAMOS PRODUZIR CHÁ, QUE FIXE!”

Saiu desse encontro com uma planta debaixo do braço e, já em casa, a reacção do marido, Dirk Niepoort, conhecido pelos vinhos mas também ele um amante de chá, não se fez esperar: “Vamos plantar chá, que fixe!” Assim foi. Escolheram o canto mais frio do jardim da casa do Porto para a experiência — e correu bem. A planta, ainda que de uma espécie diferente das comuns japoneiras minhotas, cresceu, viçosa, e “ficou o bichinho” — “produzir chá, porque não?”.

“ACHEI QUE A NINA ERA APANHADA DA CABEÇA.”

Acabaram por plantar 200 Camellia sinensis no quintal, em 2011; hoje, em Fornelo, têm 12 mil, espalhadas por um hectare da quinta, naquela que é uma das pouquíssimas produções de chá na Europa. São “12 mil buraquinhos”, feitos “em ziguezague”, pelas mãos de Vítor Marques, jardineiro da propriedade há 17 anos. Vai gesticulando enquanto o explica, as mãos robustas e experientes de quem por aqui anda há muito tempo — já cá estava quando a quinta era apenas uma quinta nas mãos da família Niepoort. Como reagiu quando soube que iriam tentar produzir chá verde naqueles terrenos? “Achei que a Nina era apanhada da cabeça”, confessa, descarado e jovial, já com os dedos a bailar entre as folhas, à cata de pequenas e suculentas flores amarelas — nem todas se apanham e muito menos de qualquer maneira.

“ESTE É O PRIMEIRO PRODUTO (...) E NASCEU POR ACIDENTE”.

Isto porque para o Florchá só entram “flores a sério”, recolhidas no Outono, sempre com muito cuidado e precisão para não macerar. Quase ternura. Este é o primeiro produto com assinatura integral Chá Camélia e nasceu por “acidente”. Em 2017, ainda a plantação era metade, foi feita a recolha das flores para evitar que as plantas criassem tantas sementes. “De repente”, recorda a empresária, “tínhamos um carrinho de mão cheio de flores, tão bonito, a caminho do composto”. Não podia ser. Decidiu desidratar um punhado delas e fazer uma infusão (“saiu bastante bem”). Pôs-se a investigar e percebeu que este maná tem os mesmos benefícios que o chá verde, sem a cafeína, e que na China também o produzem, se bem que dificilmente cheguem vestígios à Europa, quiçá por ser um processo tão trabalhoso e delicado. O resultado: um chá “leve e luminoso”, um “espetáculo” perfeito para um bule de vidro — sim, o desabrochar das flores em contacto com a água quente consegue ser hipnotizante.


  

  
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“Pôs-se a investigar e percebeu que este maná tem os mesmos benefícios que o chá verde, sem a cafeína...”

“É BOM PARA AS PLANTAS E PARA NÓS.”

Planta a planta, camélia a camélia. De galochas nos pés, pá na mão, Nina aproveita as tréguas da chuva para cirandar entre os pequenos rebentos enquanto empurra um carrinho de mão. “Estes são os bebés”, apresenta, com um sorriso. Debruça-se sobre cada um e, cuidadosamente, cobre-os de “ouro preto”, ou seja, composto orgânico, feito ali ao lado; depois, há-de ser colocada casca de pinheiro para manter a humidade da terra e abafar as ervas daninhas (todas arrancadas à mão). A seu lado, Vítor e Isaura fazem o mesmo, pé ante pé. Tudo ao natural, seguindo ao máximo os princípios da agricultura biodinâmica, em que todos os elementos têm de estar em harmonia: terra, produtos, humanos, ambiente. De quando em quando, por exemplo, aplicam nas plantas infusões de cavalinha ou cidreira e, em dias de calor, refrescam-se com o mesmo spray. “Porque é bom para as plantas e para nós. ” Chá com chá se paga, não é o que se diz?

“ESSE FOI O PRIMEIRO CHOQUE.”

Estamos no terreno onde estão as plantas mais jovens, algumas pouco ultrapassam a altura dos tornozelos — só daqui a cinco anos, pelo menos, se tornarão chá. Esse foi o “primeiro choque”, diz Nina, recordando as primeiras leituras, ainda o sonho de ter uma produção de chá em Vila do Conde se sedimentava. E quanto mais Nina e Dirk se informavam, mais difícil parecia. Portanto, só para a planta crescer, e até à colheita inaugural, seria preciso aguardar meia década — longínquo deadline para uma jornalista. Depois, da Camellia sinensis pode produzir-se chá branco, preto, amarelo, verde — qual escolher? O processo de transformação, concluíram, era bem mais complexo do que a simples secagem das folhas (a manipulação e a rolagem é que geram os diferentes gostos) e todos os peritos garantiam que seria muito difícil cultivar camélias a partir de sementes. A juntar a isto, o facto de, além da Gorreana, nos Açores, não existirem grandes plantações de chá na Europa, muito menos no Litoral Norte português — em meados do século passado, houve um precursor em Ponte de Lima, que acabou por abandonar o projecto ao emigrar para o Brasil. Seria possível?

ATO 2: A VIDA NUMA TAÇA DE CHÁ.

“FAZ COISAS DIFERENTES DE TODAS AS OUTRAS PESSOAS.”

“Eu gosto de fazer coisas novas”, confessa Nina, “gosto da inovação, de fazer coisas que nunca ninguém fez”. Dirk, por seu turno, também é um espírito desassossegado, com fama (e proveito) de gostar de experiências. Há quem o chame “revolucionário” por ter decidido apostar no vinho de mesa quando todos pensavam no Porto, epíteto que o elogiado rejeita porque diz respeitar, e muito, as tradições do Douro. Há quem o chame “maluco” porque, alvitra Marco Niepoort, um dos três filhos, “faz coisas diferentes de todas as outras pessoas” e “anda para a frente”. O que nem todos sabem é que antes dos vinhos, do despertar do irrequieto produtor de colete e crocs, Dirk sonhava produzir chá — nos anos 80, chegou mesmo a viajar para a Ásia com a intenção de começar um negócio de distribuição, mas tal acabou por não acontecer. Até que a quimera lhe veio bater à porta.

“SE NÓS NÃO ARRISCARMOS, NUNCA MAIS VAMOS DESCOBRIR.”

Portanto, nem Nina, nem Dirk, gostam de “fazer coisas normais”, logo produzir chá em Vila do Conde parecia ser um desafio à medida. Deitaram então mãos à obra, enquanto outros levavam as mãos à cabeça: “Muitas pessoas chamaram-nos mesmo loucos. Diziam ‘vocês agora avariaram completamente’. E eu pensei ‘talvez’. Mas se nós não arriscarmos, nunca mais vamos descobrir. A ideia é genial e vale a pena explorar.” A sorte foi que Haruyo e Shigeru Morimoto acharam o mesmo — e apadrinharam a plantação.

Há 40 anos que os Morimoto produzem chá verde biológico numa ilha a sul do Japão, perto de Miyazaki. E quando Nina e Dirk estavam à procura de ajuda “de quem sabe” para semearem aquilo que viria a ser a Chá Camélia, lembraram-se de um lote que tinham provado numa loja na Alemanha — e foram dar a este casal japonês. “Vieram visitar-nos e logo abraçaram o projecto que, na altura, ainda era as 200 plantas na nossa relva”, graceja Nina. “E eles acharam tão giro!”


  

  
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“Muitas pessoas chamaram-nos mesmo loucos. Diziam ‘vocês agora avariaram completamente’. E eu pensei ‘talvez’. Mas se nós não arriscarmos, nunca mais vamos descobrir.”

“CONHECI A NINA QUANDO ELA VEIO PARA PORTUGAL.”

Essas camélias foram, depois, mudadas para Fornelo, plantaram-se mais, inclusive a partir de sementes (aquilo que muitos consideravam impossível), e, entretanto, tendo em conta que o primeiro produto próprio ainda iria demorar uns anitos para estar no mercado, começou-se a preparar caminho. A distribuir os chás dos Morimoto por cá, a dar a conhecer outros pequenos produtores japoneses, a estabelecer diversas parcerias — “felizes”, aponta Nina, tal como está inscrito no site do projecto. Seja com a aveirense Feitoria do Cacao, com quem fez um chocolate branco com matcha. Seja com a Mimos de Arnoia, uma quinta situada em Celorico de Basto, dedicada ao cultivo de ervas aromáticas e flores comestíveis. “Conheci a Nina quando ela veio para Portugal e procurava produtos biológicos”, recorda Isabel Teixeira, que passa as manhãs de sábado na sua banca no mercado biológico no Parque da Cidade, do Porto — tal como Nina, que por lá faz as suas compras, enquanto (consciente) consumidora. Conversa puxa conversa, urtiga para aqui, chá para acolá, teceu-se uma amizade que mais tarde se veio a traduzir no desenvolvimento de blends como o floral Sencha Rosa (chá verde dos Morimoto com pétalas de rosas de Isabel).

“É UMA FILOSOFIA DE VIDA.”

Nina acredita neste tipo de encontros e sinergias (“Crescemos juntos, trocamos informações, experiências, momentos felizes e de desespero”) que também têm ajudado a desenvolver uma cultura do chá por cá. “Calculámos que demoraríamos dez anos até termos uma produção a sério”, diz, logo tiveram que preparar o caminho. “Para que quando tivéssemos o nosso produto pronto, os portugueses reconhecessem a qualidade.” E mais do que isso. A verdade, afiança Nina, é que não sabemos, mas precisamos de mais chá no nosso dia-a-dia. “A cultura de chá é muito fascinante porque traz mais qualidade à vida, mais paz, mais momentos de descanso”, coisas que, no seu entender, “faltam muito na vida moderna”. O chá pede que nos afastemos do barulho e nos aproximemos da natureza. Não é uma “bebida qualquer”, rápida e indolor: “O estilo asiático de preparar chá várias vezes com as mesmas folhas, degustando a diferença no gosto de infusão para infusão, convida mesmo a apreciar o momento e a apreciar com corpo e alma”. O slogan do seu projecto resume-o: “É mais do que uma bebida, é uma filosofia de vida”.

“A MANEIRA JAPONESA DE FAZER AS COISAS DIREITINHAS.”

Tudo isso a fascina, por isso, promove worskshops e conversas sobre o tema — sempre com um brilhozinho nos olhos. Adora “a maneira japonesa de fazer as coisas direitinhas, com calma, com concentração”, o que “não significa ser rígido, mas sim fazer o correcto no momento”. Com “sensibilidade”. Também o design é simbólico. O lógotipo da Chá Camélia, desenhado por Regina Pessoa, é inspirado nos carimbos japoneses; as embalagens de madeira, sóbrias e simples, foram pensadas por Francisco Providência. Porque servir um chá não é apenas isso. A preparação, o local, o bule, a taça, não há nada que não tenha significado. “Isso é a cultura do chá: servir o máximo prazer no momento à pessoa que eu convido para uma taça de chá.” Antecipar as necessidades e servir o “chá perfeito” para quem o espera. Palavra de chajin.

ATO 3: A PROVA DA DEDICAÇÃO.

“CHOREI IMENSO, FOI DOS MOMENTOS MAIS TERRÍVEIS DA MINHA VIDA.”

Em Fornelo, aonde a rede do telemóvel mal chega, há uma preciosidade escondida no barracão verde-água de portões vermelhos. À primeira vista, ninguém diria o que é aquela estrutura metálica a repousar num canto enegrecido. À segunda também não. A mestre-de-cerimónias, felizmente, desfaz as dúvidas. “Esta é que é a famosa panela-wok”, apresenta. O que quer dizer muito. A história tem laivos trágicos. Quando visitou os Morimoto pela primeira vez no Japão, Nina recebeu de presente um wok, uma grande e pesada panela de ferro fundido, em que o casal tinha produzido o seu primeiro chá, há mais de 40 anos. Ficou radiante, claro. E trouxe a dádiva para Portugal, fazendo-se valer do seu japonês (também fala alemão, português, inglês e um pouco de espanhol) para explicar tão estranha bagagem. Mas quando aterrou no Porto, ao fim de 36 horas de viagem, apercebeu-se que o wok tinha partido. “Chorei imenso, foi dos momentos mais terríveis da minha vida, porque era a primeira panela deles, o meu primeiro instrumento de produção”, lamenta. Dias depois, ainda a digerir a desilusão, encontrou alguém que, com “muita paciência”, fez um “milagre” ao soldar o triângulo em falta. “E ficou lindíssimo”, afirma, entusiasmada, para depois aludir à kintsugi, a arte japonesa de reparar com ouro fissuras na cerâmica. “Torna uma parte avariada, sem valor, numa coisa ainda mais valiosa, super especial”, descreve. “Como a nossa panela kintsugi.” Onde fazem o próprio chá.

“ESTE TRABALHO TODO E TALVEZ VÁ SER UM CHÁ.”

Usaram-na, pela primeira vez, há três anos, numa minicolheita e respectiva produção experimental. Nem chegou a 500 gramas. “Foi mesmo para termos uma ideia se isto tinha pernas para andar”, justifica. Na véspera da experiência, estava uma “pilha de nervos”. “Quase morri”, lembra, “estava tão nervosa”. As perguntas não paravam de girar na sua cabeça. E se o chá ficar mal? E se não souber bem? Agora que tinham o terreno arranjado, as plantas, os tratamentos biológicos… o que fazer se o chá não prestasse? “Fiquei em choque. Só aí pensei: este trabalho todo e talvez vá ser um chá qualquer, normal…”

Felizmente, todas as angústias caíram por terra. O primeiro chá, logo aprovado pelos Morimoto, já deixava adivinhar o potencial do que por ali ia e que agora se revela, em todo o seu esplendor, na primeira produção “a sério”, que finalmente aconteceu em 2019. O processo é moroso. A colheita faz-se em Abril e, “com alguma sorte e chuva”, pode haver uma segunda em Julho. Nina e a restante equipa da Chá Camélia passam em revista todas as plantas maduras e, com olhos de lince, sinalizam um rebento e as duas primeiras folhas, “tenras e ainda com brilho”. Usam as mãos para colher, sempre com cuidado, para “não quebrar”, mas com rapidez, para “não oxidar”. E à medida que os anos passam, mais brotos ganha a planta — e mais matéria-prima.

“NO FIM DO DIA POSSO DEGUSTAR O RESULTADO DO TRABALHO.”

É minucioso. Demorado. Delicado também. Uma “arte”. Da primeira colheita saíram 12 quilos de chá seco — “parece pouco”, mas equivale a 60 quilos de folha fresca. Que em cinco, seis horas, se transformam em chá verde. “No fim do dia posso degustar o resultado do trabalho”, explica Nina, o que é particularmente “gratificante”: “Às vezes, estamos tão cansados, saímos da produção estourados, vamos provar o chá e…” Deixa a frase incompleta. Com isto, quer dizer que ainda bem que tudo começa outra vez no dia seguinte, que há mais para fazer. Lá terão de vaporizar novamente todas as folhas colecionadas no dia, para que elas não oxidem e mantenham a cor verde; lá terão de as mexer, rolar, secar, a várias temperaturas. Praticamente só com as mãos. Não há cá máquinas — apenas os dedos e o nariz, o tacto e o olfacto, a ditar quando é altura de passar para a fase seguinte.


  

  
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"Não há cá máquinas — apenas os dedos e o nariz, o tacto e o olfacto."

“PRODUTO INOVADOR E DISTINTIVO.”

Aqui, faz-se chá ao estilo asiático antigo. Porque, diz Nina, também é a “melhor maneira para a terra e para as plantas”. E esse esforço, acredita, está na taça que agora segura, no sabor de um “produto inovador e distintivo” que “revela muito a natureza”, um terroir muito próprio. A agricultura é biodinâmica, os processos são manuais, a produção é, orgulhosamente, pequena, até as cerâmicas são artesanais — tudo isso é devolvido no palato do Nosso Chá, assim se chama o primeiro chá verde da empresa. Nosso porque é obra de uma orquestra, não de um maestro.

“O MUNDO JÁ TEM MAU CHÁ QUE CHEGUE.”

“Sinto sempre, sempre, muita felicidade ao bebê-lo”, confessa Nina, entornando água a 70ºC num gaiwan de vidro, um bule tradicional asiático usado para a preparação de chás excecionais que permitem várias infusões. As folhas dançam, num outro bailado sedutor. Sente que é um “privilégio” prová-lo, até porque a produção é pequena (“Não posso beber todos os dias, senão não resta nada para o resto do país”, diz, rindo). “E não é uma cópia de um chá japonês, tem um carácter próprio. É um chá de alta qualidade que foi sempre o nosso objectivo porque o mundo já tem mau chá que chegue.” A proximidade do mar dá-lhe um certo “cheirinho marítimo”, como se as folhas se tornassem algas. É um aroma complexo, com várias camadas e tonalidades, mas suave e pouco amargo. “Que tem um final de boca impressionante — como um muito bom vinho fica por muito tempo na boca. Tem umami, como se diz no Japão, que é mesmo sinal de um bom chá.” A taça esvazia-se à medida que a conversa flui — e a gata Rufina, de 15 anos, solta miados como que a anunciar a presença da arisca “rainha da casa”. “Queres mais um bocadinho?”, pergunta Nina a quem a escuta, segunda infusão a postos. “Mais quentinho. E um pouco mais forte.”

ATO 4: MUITO PARA ALÉM DO CHÁ.

“NUNCA SEGUIMOS UMA RECEITA.”

“Claro que o chá mudou literalmente a minha vida”, confessa Nina, “mas quem a mudou primeiro… foi o Dirk.” E ri. Ainda os havemos de ver na casa do Porto a cozinhar a quatro mãos — e muita intuição. Falam em alemão entre si, roubam um ou outro carinho, cada um no seu posto, entretido com o que tem de fazer. Ouve-se, ao fundo, o chilrear dos quatro periquitos que vivem numa gigantesca gaiola na sala — cuidado com o Bolota que gosta de mordiscar dedos curiosos — enquanto aqui, na cozinha, há o ritmo preciso da faca na tábua, o pulverizar das especiarias e ervas frescas recém-colhidas no almofariz, o bater dos copos intervalado com conversas em inglês, espanhol, alemão, português. Para a mesa, num jantar entre amigos enólogos e curiosos, virá estufado marroquino. E muito conhecimento, travado entre provas cegas de vinhos singulares, numa babel de línguas, sabores e histórias.

“Nós adoramos cozinhar e nunca seguimos uma receita, nem nunca combinamos o que cozinhamos juntos”, relata a chef de serviço. “Normalmente, eu começo e depois ele entra. Às vezes, cozinhamos em paralelo, sem saber muito bem o que outro está a fazer. E é sempre surpreendente.” Até entre os tachos gostam de “brincar com coisas fora da caixa”: chegam a usar chá, por exemplo, numa tempura de folhas frescas; ou borras de vinho do Porto a sarapintar uma banana flambé com xarope de ácer, irresistível petisco que Dirk prepara para rematar o jantar.


  

  
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“Nós adoramos cozinhar e nunca seguimos uma receita, nem nunca combinamos o que cozinhamos juntos”, relata a chef de serviço.

“INTERESSE POR TEMAS FORA DO COMUM.”

Conheceram-se em 2006. Formada em Geografia, Etnologia e Estudos Africanos, Nina entrou no jornalismo depois de ter vivido em África, mais precisamente na Namíbia, onde trabalhou como investigadora. Ainda deu aulas na Universidade de Colónia, mas, quando chegou o derradeiro momento para prosseguir para doutoramento, desviou-se para a rádio, onde se dedicou a fazer grandes reportagens, sobretudo em países lusófonos (o português que aprendeu ao praticar capoeira ajudou-a a encontrar “um nicho”), dando formações para jornalistas de rádios comunitárias pelo caminho. Levando na algibeira um interesse por “temas fora do comum”, viajou imenso — ou não tivesse nascido a escassos quilómetros do aeroporto de Frankfurt, em 1975.

“SABIA QUE ELA IA MUDAR A MINHA VIDA PARA SEMPRE.”

Assim chegou a Portugal, com a missão de fazer um trabalho sobre a vida no Douro para lá do vinho e da gastronomia, e alguém lhe indicou Dirk Niepoort como anfitrião. Ligou-lhe a medo, temia não perceber o seu português. Entre risos, recorda que no final do telefonema, “que não foi assim tão curto”, o interlocutor lhe disse: “Da próxima, podemos falar alemão.” “Oh my god, que vergonha”, reage ainda hoje. Já ele desligava a chamada com uma certeza: “Sabia que ela ia mudar a minha vida para sempre.” Apaixonaram-se. Nina mudou-se definitivamente para Portugal (“Porque as vinhas não se mudam”) — já tem, aliás, nacionalidade portuguesa. Viajaram, e viajam, muito (“E”, diz a sorrir, “sempre tem a ver com algo para beber ou comer”). Adoram o Japão, obviamente, e a Índia. E de andar de bicicleta ao fim-de-semana pela natureza.

“É OUTRA IDEIA LOUCA.”

Juntos inventaram o Pipachá, quiçá o perfeito sumário deste caminho a dois. Numa viagem à Coreia do Sul, deram com um produtor que envelhecia chá em madeira de cedro. “Nós temos uma coisa melhor!”, pensou Dirk, de imediato. Foi difícil, fizeram imensas experiências até ao casamento perfeito, até encontrarem um chá que se deixasse contagiar na medida certa pelo que está ao seu redor. O resultado já está cá fora — outra parte repousa por estes dias nas caves Niepoort. Falamos de um chá oolong semi-oxidado, “mais ligeiro que o chá preto”, que estagia durante uns tempos numa pipa de vinho do Porto. Quem o bebe, percebe-o: sabe a frutos secos e a mel, a madeira e a flores, tudo banhado a vinho do Porto. “É outra ideia louca”, conclui Nina. “Que não é nada fácil, é muito trabalhosa, mas é nova.”

“VAMOS VER, VAMOS TENTAR.”

Então, e agora? O que se segue? “Temos muitas ideias”, responde, prontamente, Nina. Já não surpreende. Primeiro, há que estabilizar a produção e aumentar, com parcimónia, a quantidade. Vão “brincar no mundo do chá verde”, com lotes especiais, cultivares diferentes, primeiras e segundas colheitas. Mais sonhos para Fornelo: construir uma réplica de uma casa de chá japonesa, um daqueles pavilhões simples e silenciosos, refúgio ideal para cerimónias de chá e degustações próximas da natureza; abrir uma oficina de cerâmica, promover workshops, convidar artistas e criar mesmo ali, ao lado da plantação, a louça ideal para o chá ideal. A longo prazo, experimentar o chá oolong. “É o meu segundo chá preferido, dizem que a produção ainda é mais complexa e demorada e que nunca é possível na Europa…” Soa a desafio? “Vamos ver, vamos tentar.” Claro que vão. Aguardemos. “Até chá”, como se diz por aqui.


  

  
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Os amantes de chá, segundo se diz, ao ouvirem o som da água a ferver, e que para eles evoca o vento nos pinheiros, conhecem um enlevo próxima da sensação que eu experimento.”