hero desktop

DIRK NIEPOORT

LEXUS AMAZING STORIES #2

O produtor Dirk Niepoort mudou o Douro ao pôr vinho na mesa, para além do Porto. Percorra uma história sobre a arte de saber esperar.

DIRK E OS CAMINHOS SEM PRECEDENTES

Uma história com personalidade e espírito, que se desenrola por caminhos talhados de fresco. Numa viagem feita com gosto, com sensibilidade, sem destruição e com tanta, mas tanta vontade de aprender enquanto se faz.

ATO 1: SEGREDOS DERRAMADOS

À mesa joga-se à cabra-cega com vinho. Não há olhos vendados, antes garrafas-pirata. Ou decantadores e jarros, enchidos atrás da porta, que derramam segredos no copo. Estamos na dionisíaca Quinta de Nápoles, em pleno Douro, onde em 1987 começou a segunda vida na Niepoort. É Setembro, está sol, almoça-se no alpendre, entre xisto e madeira, caixilho perfeito para os socalcos que se descobrem na paisagem. A mesa é longa, preenchida, agitada. Saborosa, sempre, e repleta de conhecimento, que se vai debitando ao correr dos copos, em português, inglês, alemão, o que calhar. Uma refeição em tempo de vindimas, onde todos convivem com todos, todos trabalham com todos, estagiários, enólogos, diretores, sem grandes hierarquias ou salamaleques.

“O VINHO NESTA MESA NÃO PÁRA”

De colete e crocs, claro, Dirk Niepoort ciranda pela mesa, entra e sai com brancos, tintos, Portos, que são postos à prova num compasso próprio. Nota-se que é um ritual partilhado por todos os que aqui se sentam, a vintena de comensais — e, de quando em quando, há mais alguém que se levanta para iniciar uma nova partida. Quase nunca com produto da casa. O vinho, “que nesta mesa não pára”, circula de copo em copo, boca a boca, à medida que chovem palpites. E há um que teima em não ser desvendado. “ O que é?”, vai perguntando quem o trouxe. “Borgonha?”, atreve-se uma voz. “Pinot?”, ousa, a medo, uma outra. Descreve-se: “É calcário.” Elogia-se: “É bom, muito bom.” A revelação surpreende: é, na verdade, um vinho tão raro que não se vende.


  

  
    01

NOTA-SE QUE É UM RITUAL PARTILHADO POR TODOS OS QUE AQUI SE SENTAM.

UM NAMORO ANTIGO

“Eu acho que nesse almoço esse vinho também me foi trazido às cegas e também me passou pela cabeça que fosse Romanée-Conti”, admite Dirk, referindo-se a um dos tintos mais singulares (e caros) do mundo, numa longa conversa, temperada a chá e kombucha, largos meses depois na sua casa do Porto. E em que irá garantir, de saca-rolhas na mão, que dentro de um ano “o Dão estará na moda” — dito e feito, pensará quem o conhece. É de lá, da “Borgonha portuguesa”, um namoro antigo que culminou na compra da Quinta da Lomba pela Niepoort em 2012 (e consequente salvamento de cinco hectares de vinhas velhas com mais de 60 anos), que chega este vinho. Vem engarrafado numa magnum, cujo rótulo apresenta um desenho do Homem de Vitrúvio — feito pela filha mais nova, Ana, de 16 anos, que lhe dá o nome.

PERSONALIDADE FANTÁSTICA, COM UM JEITO ESPECIAL PARA “PREGAR PARTIDAS”

“Não é para comercializar, não tem preço — é feito com o coração”, ressalva o enólogo Sérgio Silva, depois de contar a história do “complicado” ano de 2014, de como três barricas em particular tinham “uma elegância e uma redução fabulosas” para Dirk, de como, um pouco por “esquecimento”, o vinho ficou a estagiar em madeira durante quatro anos. E de como, quando finalmente o beberam, lhe conheceram a “personalidade fantástica”, com um jeito especial para “pregar partidas”, feita de uma mistura de castas de vinhas velhas do Dão, com a baga como principal. “É assim que se fazem novos vinhos”, entusiasma-se o bairradino, já a salivar pelas “barricas de 2017 que ainda podem estar melhores”. Não está sozinho. “O Dirk”, começa, “é uma pessoa que gosta muito de fazer experiências”, que “todos os anos quer fazer uma coisa diferente”. “E isso dá-nos muita motivação para estes projectos futuros que começam pequeninos, podem crescer mais um bocadinho, mas não podem sair daquele registo — porque, por exemplo neste caso, é aquela vinha que faz o vinho, não vale a pena juntar outras, só vai estragar.”


  

  
    02

“É UMA PESSOA QUE GOSTA MUITO DE FAZER EXPERIÊNCIAS”, QUE “TODOS OS ANOS QUER FAZER UMA COISA DIFERENTE”

“UM PROCESSO QUE SE QUER “SIMPLES”

“Como tudo na vida, menos é mais”, refere Dirk, repetindo a máxima de Mies van der Rohe. É, aliás, uma das frases que mais lhe ouvimos. “Porque é um bocado a nossa lógica”, justifica. “Hoje associa-se muito o vinho a alta tecnologia, mas na verdade a essência do vinho é muito menos do que isso.” É um processo que se quer “simples”, respeitando a natureza, as castas autóctones, sem grande necessidade de intervenção humana ou aditivos. E, ainda que prevendo e preparando o futuro, honrando a tradição, os “velhinhos” de quem tanto fala e com quem tanto aprendeu. “Antigamente”, diz, enquanto se levanta de rompante, “eles sabiam fazer as coisas”. E traz uma rolha para o provar. É antiga, obviamente de cortiça, talvez um pouco mais longa do que o habitual. No topo, sobressai uma pequena cabeça, o “cogumelo”, o pretexto desta lição (não é à toa que muitos o chamam “mestre”, por muita “confusão” que tal lhe provoque).

“OS PEQUENOS DETALHES FAZEM UMA GRANDE DIFERENÇA”

O inchaço significa que quem a enfiou na garrafa a deixou um pouco de fora — algo que, nos dias de hoje, é um mau sinal para alguns mercados, um “erro”. “Mas é o vedante perfeito. O vinho chega ali, mas não passa. Os velhinhos não eram loucos, nem burros. Abre-se uma garrafa destas e é uma coisa linda, o vinho é perfeito.” São “os pequenos detalhes que fazem uma grande diferença” e, por isso, Dirk bate-se por ter, sempre que possível, o tal “cogumelo” nas garrafas da Niepoort — e são mais de duas milhões por ano, numa empresa que facturou 15 milhões em 2019. Porque as “pequenas imperfeições fazem o perfeito”. E isso não é um paradoxo.

ATO 2: UMA “REVOLUÇÃO” A OLHAR PARA TRÁS

“SE SOUBESSEM QUE ERA UM TRABALHO ASSIM TÃO DURO, NINGUÉM VINHA”

Ó uva, ó que linda uva”, canta ela, de tesoura na mão e pés no chão. Quem a escuta até pensa que é fácil — mas basta andar no terreno para perceber o que é vindimar no Douro. Ao longe, só se vêem chapéus de palha a despontar da vinha. A inclinação é imensa e não há nada para agarrar para ajudar à subida — ou descida. O calor é muito, o terreno traiçoeiro — por vezes, é ver um gigo a rolar, ladeira abaixo. Cuidado com os pés, cuidado com as mãos, cuidado sempre. As uvas têm de ser resgatadas da rama por quem as cata, mulheres sobretudo, com os homens a acartar as caixas. “Se soubessem que era um trabalho assim tão duro, ninguém vinha, ainda mais para esta vinha por patamares”, confessa uma trabalhadora, que já aqui anda há uns anos. No final de um bardo, uma pergunta em tom de alívio: “Está vindimado, não está?” Está. Siga para o próximo, de tesoura na mão e pés no chão.

“O DRAMATISMO QUE É O DOURO”

É um trabalho árduo — “e é, por isso, que o turismo, se for bem feito, é importante para as pessoas perceberem um bocadinho do dramatismo que é o Douro”. Se a Bairrada é “a menina dos olhos azuis”, o Douro é “uma coisa de outro mundo”. Dirk Niepoort fica até hoje em “pele de galinha” ao contemplá-lo. Porque é tão “bonito, fantástico, intenso e dramático”, quanto é “duro, muito duro”. Também por isso se opõe aos vinhos vendidos ao desbarato, teme a “banalização”. É que é “custoso” fazer um vinho no Douro, realça o homem que, por muito que rejeite o epíteto de “revolucionário”, ajudou a mudar a região ao iniciar a produção de vinho de mesa quando quase todos pensavam no Porto.


  

  
    03

“TÃO “BONITO, FANTÁSTICO, INTENSO E DRAMÁTICO”, QUANTO É “DURO, MUITO DURO”

“MAIS TRIPEIRO QUE MUITOS”

Desde o século XIX que, entre os Niepoort, todos os filhos homens usam Eduardo como nome próprio — uma tradição que até já inspirou uma nova gama de vinhos, a Eduardo’s, pela mão dos benjamins Daniel e Marco. Assim, em 1964, no Porto, nascia Eduardo Dirk van der Niepoort, filho de pai holandês, Rudolph Niepoort, e mãe alemã, Ingrid Salrein. “Português acima de tudo”, “mais tripeiro que muitos”, ainda que sem passaporte nacional (o serviço militar e as guerras coloniais provocaram o esquecimento, que está finalmente a ser colmatado). Há cinco gerações que a família holandesa carrega no seu ADN o vinho do Porto — a empresa foi criada em 1842 por Eduard Kebe que, quando morre, seis anos mais tarde, passa a pasta ao sócio F.M. van der Niepoort.

VESTIA PELA PRIMEIRA VEZ O FATO DE “LÍDER” — E GOSTAVA.

Dirk entra no negócio aos 23 anos e, dez anos depois, assume os comandos ao lado do pai, que se reforma em 2005; aí, assume definitivamente a gestão com a irmã Verena, que se afastou em 2018. Nas suas mãos, a Niepoort tornou-se “30 vezes maior, muito mais complicada”, com os vinhos de mesa a ocuparem a maior fatia do negócio. A responsabilidade nunca o assustou — pelo contrário, sempre o atraiu — como conclui ao lembrar-se da infância “perfeita”, em particular do último ano no Colégio Alemão. Nunca foi grande aluno: era um “chatinho simpático”, mas “muito preguiçoso” — chegou a reprovar na segunda classe. Até que, como finalista, a sua turma teve de organizar uma festa para financiar uma viagem à Alemanha e o grosso do trabalho recaiu nele e em dois amigos: “Aprendi mesmo muito, que há aqueles que dominam, os que trabalham, os que só chateiam.” Convidaram os BAN, os GNR, o Rui Veloso e, para os preparativos, o director do colégio deu-lhes acesso a todo o edifício. “Aquilo mudou a minha vida, tinha as chaves de tudo — às 4 horas da madrugada fomos jogar futebol para o ginásio”, recorda. E, sem se aperceber, vestia pela primeira vez o fato de “líder” — e gostava (se bem que para alguém tão alheio a protocolos na indumentária esta figura de estilo possa não ser a mais feliz).


  

  
    04

“APRENDI MESMO MUITO, QUE HÁ AQUELES QUE DOMINAM, OS QUE TRABALHAM, OS QUE SÓ CHATEIAM.”

“FAZER VINHO NO DOURO — DE MESA, NÃO PORTO.”

Formou-se em Economia, na Suíça, onde conheceu a primeira mulher, mãe de Daniel, de 28 anos, e Marco, de 25. Como não queria gastar dinheiro, quem sabe se à imagem do Tio Patinhas dos quadradinhos que sempre o acompanham (inclusive no carro, entre copos, muitas garrafas e saca-rolhas), aprendeu sozinho a cozinhar, ainda hoje uma das suas grandes paixões. Estagiou numa distribuidora de vinhos, a cuja entrevista chegou “hiper pontual”, como sempre, mas cheio de óleo — vicissitudes da vida na estrada; e, quase sem dar por ela, já estava com um inspector à frente com tempo limite para resolver (com direito a palmas) um imbróglio indecifrável nas finanças. Foi por lá, quase sem querer, ao participar nas primeiras provas, que começou a brotar o “bichinho” do vinho. E, sobretudo, ao devorar um grande livro sobre enologia que lhe inspirou a vontade de comprar uma garrafa de Château Petrus — o anúncio do preço empalideceu-o, acabando por levar um bem mais modesto Château d’Yquem. Seguiu-se uma nova formação na Universidade da Califórnia, em Davis, onde estagiou na produtora de vinhos Cuvaison. Regressado a Portugal, um amigo perguntou-lhe se planeava fazer vinho no Douro — de mesa, não Porto. O que em 2020 pode parecer comum, na altura era uma sugestão radical. Dirk não sabia, mas deu uma certeza: A acontecer, o primeiro vinho seria “um monstro”, porém em 20 anos estaria a fazer os vinhos que, diz, na altura ainda não sabia fazer. Elegantes, finos, leves.

“AQUILO IMPRESSIONOU-ME DE TAL MANEIRA…”

E houve aquela garrafa de 1938. Aquela garrafa que abriu em 87 ou 88 e lhe mostrou que um outro mundo era possível. De um néctar que o pai já bebera nos anos 60 e que gabara por ser “fantástico”. Um vinho de mesa, produzido no Douro, sabe-se lá como. “Aquilo impressionou-me de tal maneira…”, revela. “Estava fantástico. Mas as condições em que foi feito…” Terá sido um lavrador a produzi-lo para beber em casa e o seu avô gostara, dera-lhe uma pipa. “Comecei a pensar: se calhar posso fazer muito melhor. Comecei a ver aqui um potencial muito grande para fazer vinhos.”

“ESTÁ A FICAR CADA VEZ MELHOR”

A revolução começava aí. Adquiridas as primeiras vinhas com a compra da Quinta de Nápoles e da Quinta do Carril, Robustus, o primeiro de seu nome, nascia em 1990, ainda que o desse ano nunca tenha sido comercializado. Um vinho “pesado”, que “está a ficar cada vez melhor”. O início de toda uma dinastia de emblemáticos vinhos de mesa do Douro com assinatura Niepoort — Redoma, Tiara, Charme. Robustus (nas outras encarnações), Batuta (como o cão da Quinta de Nápoles), Diálogo (com rótulo ilustrado por Luís Afonso, a roubar inspiração à banda desenhada). E muitos outros, primeiro mais pesados, leves e elegantes mais tarde, uma mudança de estilo, criticada por alguns, que Dirk diz basear-se no seu gosto e ambições pessoais, no que aprendeu com os seus “heróis”, personalidades como Wilhelm Haag e Angelo Gaja, e não numa tentativa de responder a modas ou tendências.

ATO 3: A ARTE DE SABER ESPERAR

VINHOS QUE NÃO TENTAM SER O QUE NÃO SÃO

A produção afirmou-se mais ainda com a ansiada conclusão da adega de Nápoles, em 2007, e com a fortíssima aliança Douro Boys, já a caminho do 16.º ano de actividade, que junta cinco produtores durienses na defesa e promoção dos vinhos DOC Douro, e da região, além-fronteiras. Mas o Douro é apenas um dos vértices da Niepoort, que entretanto já se estendeu a outros terroirs portugueses: à Bairrada, com a compra da Quinta de Baixo, berço, entre outros, dos vinhos cool and funky Nat Cool e de um outro pacto, os Baga Friends; e ao já referido Dão, de que já se conhece Conciso. Sempre com a premissa de não criar vinhos dissimulados, que tentam ser o que não são ou com problemas de identidade. Mostrar o que são e, mormente, o que sempre foram.

“MAS EU NÃO SOU REVOLUCIONÁRIO”

“Não havia a tradição de fazer vinho de mesa no Douro”, logo “é óbvio que o raciocínio, a lógica, tudo isso foi novo”. “Mas eu não sou revolucionário”, enfatiza. “Aprendo com o passado. A nossa forma de fazer vinho é muito básica e sem muita tecnologia.” O que significa que, por vezes, dá por si a contrariar os professores de enologia dos filhos. “Aprende-se na escola muita coisa que ele risca e funciona”, afirma o filho Marco Niepoort. “Acho que ele é maluco, mas é positivo, porque faz coisas diferentes das outras pessoas”. E isso é “andar para a frente”.

“AQUI É QUASE TUDO MANUAL”

É da adega de Vale de Mendiz, a poucos quilómetros da Quinta de Nápoles, que saem os vinhos do Porto da Niepoort. E é lá que vemos três mulheres enterradas até aos joelhos em uvas tintas, naqueles que serão os únicos lagares redondos do mundo. “Aqui é quase tudo manual”, vai apresentando Dirk, enquanto passarinha pelo espaço. O que “dá mais trabalho”, mas também um “controlo” maior — e sim, pisar as uvas faz diferença, “porque destrói a uva, macera-a, abre-a, mas não a magoa”. É isto que tenta fazer no seus Portos, aplicar o que “aprendeu com os velhinhos”: “E depois há acertos, pormenores, é cirúrgico.” Pressupõe saber esperar.


  

  
    05

“DÁ MAIS TRABALHO”, MAS TAMBÉM UM “CONTROLO” MAIOR — E SIM, PISAR AS UVAS FAZ DIFERENÇA, “PORQUE DESTRÓI A UVA, MACERA-A, ABRE-A, MAS NÃO A MAGOA”

“PRODUZIR PARA GUARDAR E UM DIA SURPREENDER”

Se as pessoas geralmente fazem planos para prazos de dias, semanas, por vezes meses ou poucos anos, o empresário pensa “a 20 anos”. O que talvez venha do vinho do Porto, quiçá da filosofia de fazer para não beber, de produzir para guardar e um dia surpreender. Começou por aprendê-lo com outro dos seus professores, talvez o “mais importante”: José Nogueira, da família que há já cinco gerações dá os master blenders, ou adegueiros, à Niepoort. Cinco gerações a provar vinhos que ainda não o são para lhes adivinhar o amanhã.

“OBRIGAVA-ME A TER CALMA, A TER PACIÊNCIA”

Em jovem, Dirk passava muito do seu tempo nas caves em Vila Nova de Gaia e cabia ao senhor José refrear-lhe o entusiasmo. “Obrigava-me a ter calma, a ter paciência”, conta, para depois narrar um dos muitos episódios em que levou uma chapada de realidade. Um ano depois de uma vindima, teimou em provar um vinho, pressentindo que aí viria um vintage. “Porque tinha muita cor”, dizia ele, “muita fruta”. Claro que, feita nova experiência, a amostra não revelava nenhum desses atributos; e dez anos depois, quando estavam a escolher o que incluir no lote, era o pior vinho.

“PENSO, PENSO E DEPOIS JUNTO AS PEÇAS”

“Ele ensinou-me a questão do tempo, da lentidão, a saber esperar”, considera. “É uma das coisas que tento ensinar aos meus filhos. Mais importante do que ter uma boa ideia, é ter a paciência, a calma para esperar pelo momento certo. E aí agir, sem hesitações.” O timing é tudo, já dizia o outro. Mas como saber? Não é intuição (“A intuição é o resumo de muito pensar”), não é sorte (“A sorte dá muito trabalho”). O que outros acham que é “magia”, é, no fim de contas, algo “lógico”. E assim se vê, e provoca, o futuro. Há 20 anos, 30 anos, já (pre)via o Douro de hoje, o Douro como entreposto turístico, gastronómico, vínico. Porque todo o potencial estava lá. “Às vezes, as pessoas acham que faço coisas sem lógica aparente, mas eu vejo muitos cenários ao mesmo tempo. Coisas impossíveis para uns, não o são para mim, mas baseio-me sempre em factos. Penso, penso e depois junto as peças.” Há risco, mas controlado.


  

  
    06

NÃO É INTUIÇÃO (“A INTUIÇÃO É O RESUMO DE MUITO PENSAR”), NÃO É SORTE (“A SORTE DÁ MUITO TRABALHO”).

“É O ACERTAR DE PORMENORES QUE FAZ A DIFERENÇA”

Talvez todo este espírito se concretize em toda a sua plenitude nos Portos — em particular no seu vinho “mais perfeito”, o Vintage de 2017. “Eu sei que já há quem não me leve a sério porque eu disse que o meu melhor vinho era o de 2005, depois 2011, depois 2015 e agora 2017”, consente o produtor, um comunicador nato, marketeer de nascença. “Mas também digo que o vinho do Porto, e principalmente um Vintage, não é uma revolução. É uma evolução, é o acertar de pormenores que faz a diferença.” Esperar e detectar o ano certo, com determinadas condições climáticas — no caso de 2017, muito quente, mas com uma vindima fresca, como aconteceu no mítico 1945. Apanhar as uvas, muitas delas centenárias, talvez mais cedo que a maioria, para manter acidez e frescura. Todas em agricultura biológica, biodinâmica se possível. Pisa a pé, em lagares de granito, com 100% de engaço. Trasfega rápida após a vindima para tonéis. E outras coisas que tais, que o segredo ainda é a alma do negócio, para conseguir 99 pontos em 100 do reputado crítico Robert Parker.

Ato 4: A INESGOTÁVEL BELEZA DE UMA FACA

JUNTOS PÕEM À PROVA — E PROVAM — O MUNDO

Acompanhar o irrequieto produtor por uma vinha é uma experiência. Inclui paragens constantes para provar uvas, aqui e ali, nunca à toa. “A minha decisão de vindimar é baseada nas uvas, não é nas análises”, há-de explicar, já no Porto, na sala da casa onde vive com Nina Gruntkowski, jornalista feita empresária, o rosto de um sonho a dois chamado Chá Camélia — andam a produzir chá verde no Litoral Norte de Portugal e até já o põem a estagiar em pipas. Conheceram-se em 2006 e nunca mais se largaram (ela diz que ele lhe mudou a vida, ele diz que ela lhe mudou a vida). Juntos põem à prova — e provam — o mundo. Há verdadeiramente uma cultura de sabor nesta casa — e não é apenas porque lá em baixo há uma adega com oito mil garrafas. É também porque, quase sem darmos por ela, já estamos a participar numa nova prova cega, desta feita de chá, um sonho antigo de Dirk, mais até do que o do vinho. Nina vai trazendo taças da colheita do dia e pede opinião à mesa. “O que achas? Qual é melhor?” E para palatos sem grande vocabulário pode ser difícil respondê-lo.


  

  
    07

HÁ VERDADEIRAMENTE UMA CULTURA DE SABOR NESTA CASA — E NÃO É APENAS PORQUE LÁ EM BAIXO HÁ UMA ADEGA COM OITO MIL GARRAFAS.

“SE TE ATIRAR À ÁGUA, TU SALTAS, NADAS E ATÉ GOSTAS”

“Provar, provar, provar. É essa a receita: quanto se mais prova, mais se sabe”, remata Dirk, que, sublinha, assim aprendeu sobre vinhos. Não é enólogo, nunca o quis ser (“é um insulto, eles são castrados”), é algo avesso aos academismos. Fazer, ver, provar, falar — assim se apreende, daí o pequeno vício das provas cegas, ideais para “aferir” conhecimentos. Os filhos seguem-lhe os passos — os mais velhos para já, a caçula vive na Suíça com a mãe. À mesa, trocam cumplicidades em alemão, a sua pequena língua secreta, brincam às escondidas com as garrafas e com o vinho. Daniel, o mais velho, deixou este ano a Alemanha, onde estava a produzir vinhos Riesling em Mosel, em conjunto com Philip Kettern, para assentar arraiais em Portugal; Marco ocupou o lugar do irmão por lá, assumindo a gestão do projecto Fio Wines da Niepoort (um dia, ainda há-de tentar fazer “vinho com água do mar em vez de sulfuroso”, como um dia provou e aprovou). A passagem de testemunho para a sexta geração faz-se assim, mesmo que o retrovisor ainda devolva as recordações infantis dos piqueniques que todos faziam pelo Douro, no meio da pedra, à procura de vinhas. “O meu pai”, diz Dirk, “nunca foi bom professor: atirava-me à água e eu ou aprendia a nadar ou afundava-me — é óbvio que provavelmente ele estaria lá para me salvar, mas eu não o via”. Está a tentar não fazer o mesmo, por muito que os filhos o temam. O primogénito já lhe confessou o receio. “Mas ele já sabe nadar”, conclui o pai. “Se te atirar à água, tu saltas, nadas e até gostas”, respondeu-lhe então.

PARTILHA CONHECIMENTO, PREPARA E MOLDA A PROLE

O plano é esse, se bem que se há aspeto em que as suas previsões não têm sido tão certeiras é neste. Mas já viu o futuro, uma vez mais. Ao rodear-se de “gente nova”, sem nunca olhar para um currículo, partilha conhecimento, prepara e molda a prole, ao passo que acolhe novas ideias na equipa. E os muitos estagiários estrangeiros acabam por ser “embaixadores de Portugal” no mundo. Controlador? Estratega? “Ele estuda-nos”, observa Liliana Silva, que entrou para os escritórios da Niepoort em 2014, com 24 anos, e desde então acompanha diariamente o “caracolinho”, como carinhosamente o apelida. “Dá-nos a provar vinhos, ensina, pede opiniões e conhece os nossos gostos. E, depois, formata-nos”, brinca, entre risos. O engenho, porém, não adormece. Agora, sacrilégio, Dirk quer abanar os alicerces do vinho do Porto com o Trudy — um “Porto sexy, fresco, que dá gozo de beber” para contrariar a “imagem negativa” dos Rubys. E, um dia, ainda gostava de tomar conta de uma “adega cooperativa”, não para enriquecer, antes “mudar o paradigma das adegas cooperativas” de Portugal.

LIKE A ROLLING STONE

Melómano assumido, o empresário tem nos Rolling Stones a banda da sua vida (“Aprendi muito com eles”) e, entre outras brincadeiras sonoras, fez um wine album com o músico Pierre Aderne. É uma morning person, acorda muito, muito cedo. É, surpreendentemente, “reservado”, prefere ficar no seu “cantinho” do que no meio de multidões (“Sofro muito com muitas pessoas”); nos jantares é mais fácil, trata dos vinhos, entretém-se “a fugir das pessoas”. O colete e as crocs? Conforto. Segurança. Um manifesto. “O colete é como uma protecção para o exterior que não me prende.” Fala sete línguas (português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e suíço-alemão) e adora viajar. A pandemia de covid-19 irá, obrigatoriamente, ditar algumas mudanças na empresa e, para começar, forçou-o a ficar em casa, o que significa muito para alguém que às vezes passa meio ano lá fora. Já vem de trás: no início da sua carreira chegou a fazer 20 mil quilómetros pela Europa no carro, onde dormia, só para distribuir vinhos. Mas até tem apreciado esta vida caseira. Quem sabe se este não é, afinal, “o melhor sítio do mundo”, segreda, enquanto comunica por assobios com os quatro agapornis que guardam a sala numa grande gaiola.


  

  
    08

NO INÍCIO DA SUA CARREIRA CHEGOU A FAZER 20 MIL QUILÓMETROS PELA EUROPA NO CARRO, ONDE DORMIA, SÓ PARA DISTRIBUIR VINHOS

E… AS FACAS. “É UMA DAS MINHAS PANCAS”

Japão, bem como Índia e Itália, são destinos incontornáveis, mas dos nipónicos, tal como a mulher, admira o perfeccionismo, a concisão. E… as facas. “É uma das minhas pancas”, admite. A conversa termina muitas horas depois na cozinha, onde já o víramos bailar com Nina entre tachos, especiarias e vinho, a aprender a cortar uma maçã. Retira uma faca da caixa e mostra. Mais outra e outra. São muitas, longas, afiadas, fortes, sucintas. E precisas, de design apurado. Algumas dele, outras dela. Ele, “brutamontes”, partilha-as com todos e, por vezes, quebram-se; ela “protege-as”, perfeitas, só para ela. A lâmina atravessa a fruta como manteiga. “Sente o peso, é a faca que corta, é ela que manda”, evidencia Dirk, enquanto vai observando as lascas que saem. “Uma das coisas mais bonitas para mim é ter uma faca que corta e sentir a faca a cortar o peixe, o legume. É a base de quase tudo. Tem a ver com sensibilidade… e isso é das coisas mais bonitas que há.”